quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"Contos plausíveis" - Carlos Drummond de Andrade - Ed. Record - 1994

SETMBRO DE 2003

* A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO
" A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte veio cantando que caíra no pátio da escola um pedaço da lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.
...
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Esse menino é mesmo um caso de poesia." p. 19


* A LANTERNINHA
" A lanterna passava pelas coisas como uma fantasia criativa e destrutiva que subvertia o real. mas o que é o real senão o acaso da iluminação?" p. 20

* A MODA AUTORITÁRIA
" - Curtas até onde? Quantos centímetros? Os costureiros internacionais não dizem, e isto é muito importante. Eu tenho pernas longas. Será que vão encompridá-las ainda mais?" p. 24

* A NOITE
" Como a noite é rica! A noite é tempo de não dormir; é o de velar e procurar; de criar mundos." p. 28

* A NOITE DA REVOLTA
" - Não. Você tome seu comprimido e eu prefiro ficar acordada.
- Mas eu não sei tomar o meu comprimido sem você tomar o seu." p. 29

* A OPINIÃO EM PALÁCIO
" - Chamem a Opinião Púiblica - ordenou aos serviçais. Eles eprcorreram as praças da cidade e não a encotraram. Havia muito que a Opinião Pública deixou de frequentar lugares públicos. Recolhera-se ao beco sem saída, onde, furtivamente, abria só um olho, e isso mesmo lá de vez em quando." p.30

* AQUELE CRIME
" Chegou-se à conclusão de que não houvera motivo algum para o crime, senão esse de ser tão bem lanejado e consumado que ninguém jamais descrobtiria o criminoso e muito menos o crime se ele próprio não concebesse como obra prima destinada ao futuro. No fundo um vaidodo, crente na posteridade." p. 36

* AS PÉROLAS
" Dentro do pacote de açúcar Renata encontrou uma pérola. A Pérola era evidentemente para Renata, que sempre desejou possuir um colar de pérolas, mas sua profissão de doceira não dava para isto." p. 39

* CARTA EXTRAVIADA
" Meu caro senhor Felipe, considerei com a maior simpatia a sua proposta de venda de camelos para transporte de passageiros e cargas na região árida. Lamento não poder aceitá-la pois já temos nosso sistema de ransportes funcionando satisfatoriamente. No mais, venha isitar nossa ruínas fenícias." p. 52

* CASOS DE BALEIAS
" A recomendação internacional para suspender a caça por tempo indeterminado só alcançará duas baleias vivas, escondidas e fantasiadas e rochedo no litoral do Espírito Santo." p. 54

* CRIME E CASTIGO
" Saiu confuso, já não tinha certeza se era culpado ou inocente, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Como toda a gente." p. 58

* DESTA ÁGUA NÃO BEBERÁS
" Daí por diante ela repetiu a carreira de Demétrio, noivando e desmanchando com inúmeros cavalheiros. No fim de cinco anos, Livanilska e Demétrio se casaram para sempre, como era fácil de prever mas ninguém previu." P. 60

* ENTRE FLORES
" Os espihos e o mau odor desapareceram, e até a rosa lhe mandou um telegrama de parabéns e votos de eterno florescimento." p. 70

* EXPERIÊNCIA
" O Arcipreste era temente a Deus, e pouco se lhe dava do Diabo...
... - Daqui por diante o senhor pode continuar duvidando da existência dele, mas já tem motivo para acreditar pelo menos na existência da mulher dele."p. 74

CONTINUA

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"São Bernardo" - Graciliano Ramos - Ed. Record - 2003

SETEMBRO DE 2003

" João Nogueira queria o romance na línga de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem." p. 8

" Foi sempre assim que se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia." p. 9

" Joaquim Sapateiro morreu. Germana arruinou. Quando me soltaram ela estava na vida, de porta aberta, com doença do mundo." p.17

" Domingo à tarde, de volta da eleição, Mendonça recebeu um tiro na costela mindinha e bateu as botas ali mesmo na estrada, perto de Bom Sucesso. No lugar hoje há uma cruz com um braço a menos." p. 40

" O major decidia, ninguém apelava. A decisão do major era um prego." p. 44

" Os alagoais do major eram grandes também. Nas colheitas a população corria para eles. E os pretos não sabiam que eram pretos e os brancos não sabiam que eram brancos." p. 44

" Uma limpeza. Essa gente quase nunca morre direito. Uns são levados pela cobra, outros pela cachaça, outros matam-se.
Na pedreira perdi um. A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a conta. Deixou viúva e órfãos miúdos. Sumiram-se: um dos meninos caiu no fogo, as lombrigas comeram o segundo, o último teve angina e a mulher enforcou-se." p. 47

" Tive abatimentos, desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que me dei mal? A verdade é que nunca soube quais foram meus atos bons e meus atos maus. Fiz coisas boas que me trouxeram prejuízo; fiz coisas ruins que me deram lucro." p. 48

" Por esta vez passa. mas se me constar que voces andam com saltos de pulga, chamo o delegado de polícia, que isso aqui não é a Russia, estão ouvindo?" p. 69

" D. Marcela era um pancadão. Cada olho! O que tinha de ruin era usar muita tinta no rosto e muitos ss na conversa. Paciência. Perfeito só deus." p. 70

" Necessitando pensar, pensei que é esquisito este costume de viverem os machos apartados das fêmeas. Quando se entendem, quase sempre são levados por motivos que se referem ao sexo. Vem daí talvez a malícia escessiva que há em torno das coisas feitas inocentemente. Dirijo-me a uma senhora, e ela se encolhe e se arrepia toda. Se não se encolhe nem se arrepia, um sujeito que vê de fora jura que há safadeza no caso." p. 74

" Cerca de meia-noite descobri o advogado no hotel discutindo poesia com Azevedo Gondim. Escutei uma hora, desejoso de instruir-me. Não me instruí." p. 80

" D. Gloria não conhecia São bernardo, e essa ignorância me ofendeu, porque para mim S. Bernardo era o lugar mais importante do mundo." p. 85

" Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos não prestam. A vontade dos pais não tira nem põe. Conheço o meu manual de zootecnia." p. 100

" - Deve haver muitas diferenças entre nós.
- Diferenças? E então? Se não houvesse diferença, nós seríamos uma pessoa só." p. 102

" Perfeitamente. O que há é que não estamos acostumados a pensar assim. Assisti um dia deses uma fota no cinema, e creio que aprendi mais que se visse aquilo escrito. Sem contar que se gasta menos tempo." p. 105

" Com mais de setenta anos andava a pé, de preferência pelas veredas. E só falava ao telefone constrangido. Odiava a época em que vivia, mas tirava-se de dificuldades empregando uns modos cerimoniosos e expressões que hoje não se usam." p. 113

" A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste." p. 117

" Demorei-me um instante vendo um casal de papa-capins namorando escandalosamente. Uma galinhagem desgraçada. Dentro de alguns dias aquilo se sescansava, cada qual tomava seu rumo, sem dar explicaçoes a ninguém. Que sorte!". p. 142

" A verdade é que não me perocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho portanto um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável num homem. mas mulher sem religião é horrível.
... Mulher sem religião é capaz de tudo." p. 155

" Não gosto de mulheres sabidas. Chamam-se intelectuais e são horríveis. Tenho visto algumas que recitam versos no teatro, fazem conferências e conduzzem um marido ou coisa que o valha. Falam bonito no palco, mas imtimamente, com as cortinas cerradas dizem: - Me auxilia, meu bem?" p. 158

" Quando em casa do Dr. Magalhães, eu tinha encontrado Madalena, João Nogueira estava lá. Tapado o Dr. Magalhães, tapadíssimo. escutá-lo é pior do que ouvir serrar madeira." p. 159

" E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos de fazer dó. Gritava dia e noite, gritava como um condenado e a ama vivia meio dia com sono. Às vezes ficava roxo de tanto berrar e receei que estivesse morrendo quando padre Silvestre lhe molhou a cabeça na pia." p. 160

" Mulher não vai com o carrapato porque não sabe qual é macho." p. 178

" Palavras de arrependimento vieram-me à boca. Engoli-as, forçado por um orgulho estúpido. Muitas vezes por falta de um grito se prede a boiada." p. 189

"O Coração das trevas" - Joseph Conrad - L&M Pocket - 1999

AGOSTO DE 2003

" As histórias dos homens do mar têm uma simplicidade direta, cujo significado caba inteiramente na casca de uma noz partida". p. 8

" Não eram colonizadores...
Eram conquistadores, e para aquilo é preciso apenas a força bruta - nada de excepcional, quando se tem, pois sua força é somente um acidente que decorre da fraqueaz alheia. Agarravam o que podiam e simplesmente porque estava ali para ser agarrado. Era simples assalto com volência, agravado com assassinato em alto grau e praticado ás cegas pelos homens - como é próprio daqueles que tateiam a escuridão. A conquista da terra, o que na maior parte significa tirá-las daqueles que têm uma fisionomia diferente ou narizes mais achatados do que os nossos, não é uma coisa bonita quando você olha demais para ela." p. 10 e 11

"Vultos negros agachavam-se, deitavam-se, sentavam-se entre as árvores, encostados nos troncos, grudados no chão, meio visíveis, meio ocultos a penumbra, com todas as atitudes de dor, abandono e desespero... e esse era o luigar para onde os ajudantes haviam se retirado para morrer." p. 33

"Estive ensinando uma das nativas sobre o posto. Foi difícil. Ela não tinha gosto pelo trabalho." p. 36

"O doente estava mal demais para gemer. As moscas zumbiam numa grande paz." p. 37

" Era obedecido, embora não inspirasse nem amor nem medo, nem emsmo respeito. Inspirava mal estar. No uma desconfiança definida - apenas mal estar - nada mais." p.43

" Não gosto de trabalhar. preferiria vagabundear e pensar em todas as coisas boas que podem ser feitas. Não gosto de trabalhar - nenhum homem gosta - mas gosto do que existe no trabalho - a oportunidade de encontrar-se a si próprio. Sua própria realidade - para você mesmo, no para outros - aquilo que nenhuma outra pessoa poderia saber. Elas podem ver o resultado final, mas nunca dizer o que realmente significa." p. 60

" Era magro, ossudo, de rostoamarelo e olhos grandes, intensos. Tinha uima aparência preocupada, e a cabeça tão calva como a pama a minha amão., mas o cabelo, ao cair, parecia ter grudado no queixo e prosperado na nova localidade, pois a barba descia-lhe até a cintura." p. 61

"É realmente mais fácil enfrentar a desgraça, a desonra e aperdição da própria alma do que a fome permanente." p. 89

" Coisa engraçada é a vida - mistérioso arranjo de lógica implacável para um propósito fútil. O máximo que você pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio... que chega tarde demais... uma colheita de inesgotáveis arrependimentos." p. 151

"O amante" - Marquerite Duras - Biblioteca Folha - 2003

AGOSTO DE 2003

"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais." p. 7

"... vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconer, se fazer, ser lida, que sua inconvenicência fundamental não será mais respeitada..." p. 11

"Na planície que se estende a perder de vista, esses rios correm, derramam-se como se a terra estivesse inclinada." p. 13

".. os saltos altos, os primeiros da minha vida, são lindos, eclipsaram todos os sapatos que tive antes..." p. 14

"Tenho quatro anos. Minha ãe está no centro da fotografia. Lembro-me do seu porte desgracioso, dos lábios que não sorriam, do modo como esperava que tirassem logo a foto. Pelos traços cansados, uma certa desordem de postura, a sonolência do olhar, sei que fazia calor, que ela estava extenuada, que se aborrecia. mas é np modo como estamos vestidos, nós, seus filhos, como ifelizes, que reencontro um certo estado de espírito que às vezes dominava minha mãe e do qual, já naquele tempo, naquela idade que tínhamos na foto, sabíamos perceber os sinais precursores, aquela atitude, exatamente, que assumia, de repente, de não querer nos dar banho, nos vestir, nem mesmo nos alimentar." p. 15

" E naquela roupa que poderia provocar risos, mas da qual ninguém ri." p. 20

"Minha mãe, meu amor..." p. 22

" Jamais fiz alguma coisa que não fosse esperar diante da porta fechada." p. 24

" Por isso escrevo sobre ela com tanta facilidade, escrevo longamente, detalhadamente, ela se transforma em escrita." p. 26

" Ela comprou chocadeiras elétricas e a instalou no salão do térreo. Conseguiu siscentos pintinhos de uma só vez, quarenta metros quadrados de pintinhos. Ela se enganou na regulagem dos raios infravermelhos, nenhum deles conseguia se alimentar. Os seiscentos pitinhos tinham o bico defeituoso, não podiam fechá-lo, morreram todos de fome... Estive no astelo por ocasião do nascimento dos pintinhos, foi uma festa. Depois, o fedor dos pintinhos mortos e da ração era tremendo, e eu não podia mais comer no castelo da minah mãe sem vomitar.
Ela morreu entre Dô e aquele a quem ela chamava de filho, no grande quarto do primeiro andar, onde punha os carneiros para dormir. Quatro a seis carneiros em volta da cama no tempo do frio, durante muitos invernos, os últimos." p. 27 e 28

 " Estamos juntos na vergonha de sermos obrigados a viver a vida." p. 47

"... Não escrevo aqui essas palavras. São palavras que lembram as carcaças encontradas nos desertos." p. 49

"... ríamos até operder o fôlego, a vida." p.53

"porque todos os seus vestidos tinham em comum um não-sei-o-que estranho que dava a impressão de não lhe pretencerem, de já terem coberto outro corpo." p. 56

"Lembro-me da graça, é muito tarde agora para esquecer, nada alcança a sua perfeição, nem as circunstâncias, nem a época, nem o frio, nem a fome, nem a derrota da Alemanha, nem a revelaço total do crime. Ela passa sempre na rua de cima da história dessas coisas, por mais temíveis que sejam." p. 56

"... sua beleza é assim, rasgada, friorenta, soluçante, e de exílio, nada lhe fica bem, tudo é grande demais para ela, e é belo, ela flutua, frágil, não se fixa em nada, mas é belo. Ela é feita assim, no rosto e no corpo,, de modo que tudo o que toca logo participa, infalivelmente, daquela beleza." p. 57

" Os corpos dos homens têm formas avaras, interiorizadas. Não se desgastam como as formas de Heléne Lagonelle, que, estas, jamais duram, quando muito um verão, isso é tudo." p. 60

" Eu gostaria de comer os seuis de Heléne Lagonelle como são comidos os meus quando na cidade chinesa aonde vou todas as noites aprofundar-me no conheciento de Deus. ser devorada por aqueles seios maravilhosos que são os dela." p. 62

" Não me lembro bem dos dias. A luz intensa do sol desbotava as cores. Aniquilava-as." p. 67

" Não tem mais filhos. Nenhum filho. Todos mortos ou descartados, formando uma multidão no fim da vida." p. 71 e 72

" ... Não só porque a velhice é parecida, mas também porque os retratos eram retocados, sempre, de modo que as características do rosto, as que restavam, eram atenuadas. Os rostos eram preparados da mesma forma para enfrentar a aternidade ... uniformemente rejuvenescidos. Era como queriam." p. 79

Prólogo

Acho que o primeiro foi aos 14 anos de idade.
Milan Kundera.

Depois disso foram um aqui e outro ali. E embora eu fosse jovem demais para compreendê-los formalmente, acredito que eu os tenha compreendido da melhor forma que era possível na época. A maneira que, embora lamentável, é a que realmente importa.


Aos 23 anos, já na faculdade e começando a ter uma idéia, digamos que, mais madura e quem sabe mais proveitosa sobre a literatura, eu comecei a escrever este diário de leitura. Junto dos trechos e expressões que me chamavam a atenção eu incluía, no caderninho, passagens sobre como andava a minha vida no momento.

Aqui estarão só os trechos das obras. O medo do ridículo me impede de incluir minhas intimidades rsss...

Muitos livros foram lidos e não constam neste compêndio porque eu não dispunha de paciência e disciplina para registrá-los no meu caderninho. Que vagabundo!


De modo algum tenho a intenção de desrespeitar os direitos autorais e de publicação das obras. Desejo apenas compartilhar e despertar a vontade de conhecer as histórias e os autores que fazem parte da minha vida. E, mais do que tudo, fazer um registro que seja mais confiável do que o papel ou um back up que podem se perder nas minhas gavetas e mudanças.

Quando eu voltar aqui e reler, vou viver tudo outra vez. A vida é breve e eu não posso reler todos os livros inteiros quando sinto saudade deles. Infelizmente. Porque o prazer que tenho quando fecho a última página, o repouso sobre meu peito e suspiro órfão, é um dos mais nobres que experimento na minha vida cheia de prazeres.

Os trechos aqui descritos não são, nem de longe, um sinal do que são as obras. Podem inclusive parecer não fazer parte delas, já que trata-se de recortes feitos com a tesoura do gosto - e ele inclusive pode mudar entre o café da manhã e a hora do almoço, fato que percebo agora, anos depois de ter começado minhas anotações.

Espero, do fundo do coração, que meus queridos amigos e estranhos corram às livrarias e aos sebos.

Quem sabe um dia desses a gente possa beber uma cerveja e ter aquele deleite literário emocionado típico dos bêbados.

Um abraço a todos.