quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"O amante" - Marquerite Duras - Biblioteca Folha - 2003

AGOSTO DE 2003

"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais." p. 7

"... vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais muros, que a palavra escrita não saberá mais onde se esconer, se fazer, ser lida, que sua inconvenicência fundamental não será mais respeitada..." p. 11

"Na planície que se estende a perder de vista, esses rios correm, derramam-se como se a terra estivesse inclinada." p. 13

".. os saltos altos, os primeiros da minha vida, são lindos, eclipsaram todos os sapatos que tive antes..." p. 14

"Tenho quatro anos. Minha ãe está no centro da fotografia. Lembro-me do seu porte desgracioso, dos lábios que não sorriam, do modo como esperava que tirassem logo a foto. Pelos traços cansados, uma certa desordem de postura, a sonolência do olhar, sei que fazia calor, que ela estava extenuada, que se aborrecia. mas é np modo como estamos vestidos, nós, seus filhos, como ifelizes, que reencontro um certo estado de espírito que às vezes dominava minha mãe e do qual, já naquele tempo, naquela idade que tínhamos na foto, sabíamos perceber os sinais precursores, aquela atitude, exatamente, que assumia, de repente, de não querer nos dar banho, nos vestir, nem mesmo nos alimentar." p. 15

" E naquela roupa que poderia provocar risos, mas da qual ninguém ri." p. 20

"Minha mãe, meu amor..." p. 22

" Jamais fiz alguma coisa que não fosse esperar diante da porta fechada." p. 24

" Por isso escrevo sobre ela com tanta facilidade, escrevo longamente, detalhadamente, ela se transforma em escrita." p. 26

" Ela comprou chocadeiras elétricas e a instalou no salão do térreo. Conseguiu siscentos pintinhos de uma só vez, quarenta metros quadrados de pintinhos. Ela se enganou na regulagem dos raios infravermelhos, nenhum deles conseguia se alimentar. Os seiscentos pitinhos tinham o bico defeituoso, não podiam fechá-lo, morreram todos de fome... Estive no astelo por ocasião do nascimento dos pintinhos, foi uma festa. Depois, o fedor dos pintinhos mortos e da ração era tremendo, e eu não podia mais comer no castelo da minah mãe sem vomitar.
Ela morreu entre Dô e aquele a quem ela chamava de filho, no grande quarto do primeiro andar, onde punha os carneiros para dormir. Quatro a seis carneiros em volta da cama no tempo do frio, durante muitos invernos, os últimos." p. 27 e 28

 " Estamos juntos na vergonha de sermos obrigados a viver a vida." p. 47

"... Não escrevo aqui essas palavras. São palavras que lembram as carcaças encontradas nos desertos." p. 49

"... ríamos até operder o fôlego, a vida." p.53

"porque todos os seus vestidos tinham em comum um não-sei-o-que estranho que dava a impressão de não lhe pretencerem, de já terem coberto outro corpo." p. 56

"Lembro-me da graça, é muito tarde agora para esquecer, nada alcança a sua perfeição, nem as circunstâncias, nem a época, nem o frio, nem a fome, nem a derrota da Alemanha, nem a revelaço total do crime. Ela passa sempre na rua de cima da história dessas coisas, por mais temíveis que sejam." p. 56

"... sua beleza é assim, rasgada, friorenta, soluçante, e de exílio, nada lhe fica bem, tudo é grande demais para ela, e é belo, ela flutua, frágil, não se fixa em nada, mas é belo. Ela é feita assim, no rosto e no corpo,, de modo que tudo o que toca logo participa, infalivelmente, daquela beleza." p. 57

" Os corpos dos homens têm formas avaras, interiorizadas. Não se desgastam como as formas de Heléne Lagonelle, que, estas, jamais duram, quando muito um verão, isso é tudo." p. 60

" Eu gostaria de comer os seuis de Heléne Lagonelle como são comidos os meus quando na cidade chinesa aonde vou todas as noites aprofundar-me no conheciento de Deus. ser devorada por aqueles seios maravilhosos que são os dela." p. 62

" Não me lembro bem dos dias. A luz intensa do sol desbotava as cores. Aniquilava-as." p. 67

" Não tem mais filhos. Nenhum filho. Todos mortos ou descartados, formando uma multidão no fim da vida." p. 71 e 72

" ... Não só porque a velhice é parecida, mas também porque os retratos eram retocados, sempre, de modo que as características do rosto, as que restavam, eram atenuadas. Os rostos eram preparados da mesma forma para enfrentar a aternidade ... uniformemente rejuvenescidos. Era como queriam." p. 79

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